Volta Olímpica?
Por Paulo Passos, especial para Placar
Confira a entrevista na íntegra:
Depois de tanto tempo na Europa você pensa em voltar a jogar um dia no Brasil ou quer se aposentar aí?
Sim, estou há mais de dez anos na Europa e agora estou pensando em mudar um pouco o meu foco e ritmo de vida. Eu só atuei aqui em times de ponta. Tirando o Bayer Leverkusen, na minha chegada, todas equipes disputavam os principais títulos e consegui ganhar muitos deles. Eu já decidi que em junho vou deixar a Europa. Meu contrato com o Milan encerra e não sei ao certo ainda qual será o destino.Vou ver com o meu procurador ainda.
Mas você pensa voltar para o Brasil?
Minha idéia inicial é essa. Falei com a minha família e quero ficar mais perto deles. Claro que existem esses novos mercados que exigem menos em relação a tempo. Por exemplo, estive no Quatar e por lá o campeonato para por dois meses. Então, você tem a possibilidade de ficar mais tempo no Brasil também. Vou decidir o meu destino nos próximos meses.
E com uma possível volta ao Brasil, você tem preferência por clube? Já recebeu alguma proposta?
Não, ainda não falei com meu procurador sobre isso. Agora, se voltar, a prioridade é ficar próximo da minha família, que está no Rio Grande do Sul.
Pode ser um retorno para o Grêmio, de onde você saiu em 1997?
Todo mundo sabe que o Grêmio é o time do meu coração. Eu tendo a possibilidade de voltar para lá seria ótimo. Agora, eu preciso estar bem também, a ponto de eles me quererem, né? Preciso ter certeza de que serei útil e uma coisa dessas não depende só de mim. Quando volta do exterior, você tem uma responsabilidade a mais. Então, preciso estar pronto para tudo isso. Eu espero jogar mais uns três anos. Isso, claro, se eu tiver condições físicas. Hoje o futebol exige muito, mas acho que aguento bem até os 35.
Jogaria no Inter?
Não (risos). Com todo o respeito e sabendo que o Inter é uma das melhores equipes da atualidade no Brasil, mas é uma coisa que eu não faria pelo meu passado gremista. Sendo o Brasil o meu destino, o sul seria uma prioridade. E aí, o destino poderia mesmo ser o Grêmio. Agora, eu não descarto outras coisas, porque sou profissional também. Menos o Inter (risos).
Como o Milan consegue jogar com tantos jogadores mais velhos? Tem algum treinamento ou preparação especial?
Aqui no Milan tudo é bem diferente das outras equipes em que eu passei. Eles fazem trabalhos específicos para cada posição e isso é separado em todo treinamento. A parte física é feita para cada posição. Agora, não existe um trabalho específico para os mais velhos. Apenas um cuidado maior na recuperação. Eles têm a sensibilidade e conhecimento de saber que eu, o Maldini e outros acima dos trinta precisamos de mais tempo de recuperação do que o Pato, por exemplo.
O Pato demorou a se firmar, mas já é o goleador da equipe. Você acha que ele realmente vai arrebentar?
O que aconteceu com o Pato foi raro no futebol. Era um craque já com poucas partidas no profissional, e isso não foi bom no início. Uma expectativa tão grande, ainda mais para um menino que chega no campeonato italiano, que é difícil. Ele precisava se desenvolver até mesmo fisicamente. Agora ele está mais adaptado aos treinamentos. Está trabalhando bem mais do que no ano passado. Eu acredito que ele vai fazer muitas coisas boas pelo Milan e pela seleção.
Você acha que ele é diferenciado?
Com certeza. Com o que eu vi dele no trabalho diário e nos jogos dá para dizer que ele é diferente. Ele tem muita qualidade, mesmo.
E o Ronaldinho ainda tem lenha para queimar? Você acha que ele consegue repetir o que já fez no futebol?
Só depende dele! Ninguém desaprende a jogar futebol, e ele ainda é novo. Eu tive a possibilidade de jogar como adversário e como companheiro de equipe dele quando estava no auge e vi o quanto ele pode fazer. O cara é fora do normal no campo!
O Milan de hoje, com tantas estrelas, é uma reedição do Real Madrid galáctico? Terá o mesmo fim?
Eu espero que não entre nessa mentalidade e que, com esse time cheio de estrelas, dê certo. Agora, não é fácil. É difícil para o treinador escalar onze jogadores e ao mesmo tempo deixar o ambiente sereno. Tem muita gente com nome, todos querem jogar e alguns vão acabar ficando de fora. Aqui, por enquanto, está tudo bem, não houve nenhum problema, mas são coisas que podem acontecer quando você tem um time com tantas estrelas.
E a chegada do Beckham pode aumentar as chances de isso acontecer?
Olha, eu conheci o Beckham lá em Madri e descobri um cara muito profissional. Ele é bom para o grupo, positivo, não cria problema nenhum. O tumulto que acaba surgindo não é por nada que ele faça. Só a presença dele já causa um furor. A primeira chegada da equipe com o Beckham, no aeroporto de Roma, foi algo que eu nunca tinha visto na minha vida. Muita gente e muitos fotógrafos. Nem na seleção brasileira tinha visto algo assim.
Existe uma pressão para a renovação na posição de volante na seleção brasileira. Quais os bons nomes da nova geração na posição?
Sempre que me perguntam eu digo: o Gilberto Silva é o titular daquela posição. Pela forma como o Brasil joga, tem que ter alguém para marcar, para segurar a defesa. Hoje, ele é o mais apropriado para a função. Fiz esse papel e sofri com essa mentalidade de que todo mundo no meio-campo precisa ir para o ataque. Lembro que o Felipão falava nos treinos: tu não passa daqui, apontando para o meio do campo. Era como se tivesse um laser marcando o meu limite no campo. Nós temos jogadores com qualidade, mas é difícil encontrar um cara que faça essa função tão bem quanto o Gilberto Silva. Muita gente fala do Hernanes, do Lucas. São ótimos jogadores e podem atuar ao lado do Gilberto, mas não os vejo substituindo-o. Porque os outros, no meio e nas alas, atacam. Alguém tem que ajudar a defesa para dar equilíbrio para a equipe. Taticamente, é um papel importante.
Você já jogou na Alemanha, Espanha e Itália. Onde se adaptou melhor?
Foi na Itália, até pelo tempo que eu fiquei e pela vida que consegui levar. Eu não troco o Brasil por nada, mas aqui me sinto em casa. Eu joguei em três times de ponta, em cidades diferentes, e acho que fui bem em todas.
Pelo tempo que conviveu com Ronaldo no Real Madrid, Milan e seleção brasileira, acha que ele vai dar certo no Corinthians?
Eu sou suspeito para falar porque sou amigo e também fã dele. Na minha primeira Copa, vi um jogador que era fora do normal. Eu acho que ele é um cara muito bom de coração e teve muitos problemas fora de campo, além das lesões. Ele tem muita qualidade, e se botar na cabeça que futebol é sacrifício, não duvido de que vai conseguir voltar e fazer alguma coisa a mais pelo nosso futebol.
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