Como eles chegaram a Seleção?

Copa de 2006

Milhões de garotos de todo o planeta sonham jogar
um Mundial de futebol, mas são raríssimos os que
conseguem. Para passar nesse funil é preciso
esforço, talento e uma dose de sorte







Cafu
Jardim Irene, São Paulo
O capitão da seleção brasileira teve uma infância feliz, soltando pipas e jogando futebol nos campinhos dessa comunidade carente da Zona Sul paulistana. Mesmo depois de se tornar um recordista de jogos com a camisa do Brasil (137) e levantar a taça do pentacampeonato mundial, Cafu não esqueceu o lugar onde foi criado. Hoje sua fundação atende centenas de jovens carentes do Jardim Irene e arredores com cursos profissionalizantes e atividades de iniciação esportiva 



No Brasil, milhares de garotos tentam a sorte todos os dias nas peneiras organizadas por clubes e empresários para selecionar jogadores. Trata-se de um mercado restrito: há 20 000 atletas profissionais de futebol no país. Metade ganha apenas um salário mínimo por mês. Cerca de 600 conseguem jogar em um time da primeira divisão, a cada ano, enquanto 800 partem para a aventura no exterior (há brasileiros atuando em toda parte, da Venezuela a Brunei). O objetivo de praticamente todos, chegar à seleção, brilhar e enriquecer, é comparável ao de ganhar na loteria. Nos últimos três anos, o técnico Carlos Alberto Parreira convocou 86 jogadores. Por fim, a aspiração máxima de todo atleta, disputar uma Copa do Mundo, será realizada neste ano por apenas 28 brasileiros – os 23 da seleção de Parreira e os cinco que se naturalizaram e vão defender equipes de outros países.
Talento puro está longe de ser o único requisito para passar por tantos funis e tornar-se um desses 28 privilegiados. "Futebol é o esporte coletivo mais individual que existe. A chance de você ter sucesso, por melhor jogador que seja, é muito pequena", diz o meio-campista Juninho Pernambucano. VEJA entrevistou os jogadores convocados por Parreira e encontrou alguns pontos em comum na trajetória da maioria deles. Se não chega a ser a fórmula infalível do sucesso, é no mínimo uma lista de itens que pesam no futuro da carreira profissional de um atleta.


Zico
Quintino, Rio de Janeiro
Nesta quadra, nos fundos da casa do pai na Zona Norte carioca, Zico deu seus primeiros chutes. Dois de seus irmãos haviam sido jogadores – Antunes foi atacante do Fluminense e Edu jogou até na seleção nos anos 60 –, mas Zico seria o mais bem-sucedido da família. Neste ano participa da Copa como treinador da seleção japonesa. Hoje, aquela casa, vazia, ainda pertence à família. "Fizemos um pacto de preservá-la para que nossos filhos e netos não deixem essa história morrer", diz o ex-jogador. 



INSPIRAR-SE EM ÍDOLOS
Dificilmente um garoto terá despertada a vocação para ser jogador de futebol sem ter um modelo a seguir. Cicinho começou a sonhar em ser jogador quando viu Raí fazer o gol do título mundial de clubes para o São Paulo, contra o Barcelona, em 1992. "Eu queria ser igual a ele, fazer um gol decisivo", recorda. O zagueiro Juan apaixonou-se por futebol ao ver o Flamengo ser campeão carioca, no Maracanã, em 1986. Dependendo do que fizerem neste mês na Alemanha, Ronaldinho Gaúcho e companhia podem garantir o surgimento da geração de craques que os sucederá. 
 Lúcio
Brasília, Distrito Federal
As primeiras lembranças ligadas ao futebol do atual zagueiro da seleção são campinhos de terra como este, no setor Sudoeste de Brasília. Foi neles que Lucimar da Silva Ferreira começou a jogar, aos 8 anos, antes de ser levado para um clube amador de Planaltina, no Distrito Federal. De lá foi para o Guará, um time da primeira divisão brasiliense. Em 1997, em um jogo que o Guará perdeu de 7a 0 para o Internacional, de Porto Alegre, Lucimar chamou a atenção dos gaúchos, que o contrataram e o rebatizaram Lúcio 



NASCER EM UMA FAMÍLIA DE JOGADORES
Quase todos os jogadores da seleção tiveram algum parente mais velho que foi jogador, mesmo que não tenha chegado a um clube profissional. Essa experiência familiar ajuda porque o parente fornece contatos úteis para ganhar uma chance em um time. Quatro dos sete irmãos do lateral esquerdo Gilberto foram jogadores de relativo sucesso. Ensinaram a ele os fundamentos do futebol. O parentesco não pode, porém, ser tomado como regra em nenhuma hipótese. Juninho Pernambucano, por exemplo, não tem ex-jogadores na família. Ronaldo também não vem de uma família de atletas.

 Cicinho
Pradópolis, São Paulo
Da infância no interior paulista Cícero João de Cezare guardou o gosto pela pescaria. Mas Cicinho, como o chamavam por causa da estatura, sempre foi apaixonado por futebol. Aos 11 anos, viajou escondido da mãe – tinha operado a garganta – para um jogo de futsal do time da cidade. Fez seis gols e jogou tão bem que escapou do castigo ao voltar para casa. Dois anos depois, com a ajuda dos tios, que emprestaram o dinheiro da passagem, foi tentar a sorte no Botafogo de Ribeirão Preto. Hoje joga no Real Madrid, da Espanha, e na seleção brasileira 



PERSISTIR
No início da carreira, é comum que dificuldades financeiras ou de adaptação façam muitos jovens desistir. A maioria dos jogadores da seleção vem de famílias humildes. Em algum momento é preciso optar entre ajudar no orçamento doméstico trabalhando o dia todo ou persistir com o improvável sonho de se tornar um atleta bem pago, passando muito tempo ainda praticamente sem ganhar nada enquanto se espera uma oportunidade. Quando já era um juvenil promissor, Gilberto Silva chegou a parar de jogar durante dois anos para trabalhar em uma fábrica de doces e apoiar financeiramente os pais. O zagueiro Edmílson, hoje no Barcelona, pensou em largar tudo quando era juvenil em Jaú, no interior paulista, porque o pai usava parte do dinheiro reservado para comprar leite no pagamento de suas passagens de ônibus. "Essas coisas me ajudam a valorizar o que eu tenho agora", diz o jogador. Iniciante no São Paulo, Rogério Ceni acordava às 4 e meia da manhã para o treino, que começava às 8. Chegava a telefonar para os pais, que viviam em Mato Grosso, pedindo para voltar para casa. "Eles diziam para eu tentar mais um pouco", ele lembra. "Vi cinqüenta goleiros desistirem por falta de qualidade ou de perseverança." Quando se trata de tentar a carreira no exterior, as coisas são ainda mais difíceis. Na Europa, por exemplo, o frio, as barreiras do idioma e as diferenças culturais desanimam muitos jogadores. "Meus dedos doem quando tenho de jogar com 4 graus negativos", diz o goleiro Gomes, do PSV Eindhoven (que acabou fora da lista final de Parreira). A solução costuma ser apoiar-se na família ou em outros jogadores brasileiros. "Meu começo na Alemanha foi bem difícil", rememora Emerson. "As pessoas falavam que eu não ia agüentar uma semana."



Cris
Guarulhos, São Paulo
O pai era sócio do Corinthians e fanático por futebol, mas quando era criança Cristiano Marques Gomes gostava mais era de jogar bola de gude. Aos 11 anos, porém, foi levado pelo pai a um teste no Corinthians, passou e nunca mais largou o futebol. No clube paulista, ficou quase dez anos. Em 1998, foi convocado pela primeira vez para a seleção brasileira, pelo técnico Vanderlei Luxemburgo. Hoje defende o Lyon, da França, e vai disputar sua primeira Copa do Mundo 



CONTAR COM UM EMPURRÃO DA SORTE
A porta mais comum para o jovem que quer ser jogador e não tem padrinho é participar de uma peneira, nome dado aos testes de seleção feitos por clubes e empresários. Nessas provas, talento é fundamental, mas também é preciso uma pitada de sorte. O aspirante a craque tem poucos minutos para mostrar potencial e agradar aos avaliadores. É conhecida a história de Cafu, que foi recusado em oito peneiras antes de ser enfim selecionado. Seu companheiro de seleção Emerson teve mais sorte: passou na primeira tentativa, uma peneira do Grêmio de Porto Alegre com 150 candidatos para onze vagas. Zé Roberto não passou em uma seleção com 150 meninos na Portuguesa, de São Paulo. "Minha mãe foi se queixar com o observador e ele me disse para voltar", recorda o jogador. "Voltei e passei."
Quem tem sorte nessa primeira etapa e abre a porta da carreira ainda terá de contar com o acaso em outras oportunidades. Rogério Ceni era o terceiro goleiro do Sinop, de Mato Grosso. O primeiro machucou o joelho, o segundo quebrou o braço e Rogério, mais do que subitamente promovido a titular, defendeu um pênalti. O time foi campeão estadual. O atacante Fred, por seu lado, ganhou notoriedade quando ainda jogava no time júnior do América, de Belo Horizonte. Teve a sorte de fazer um gol com um chute do meio do campo casada com o fato de haver uma emissora de televisão que registrou a façanha raríssima e a retransmitiu para os telejornais noturnos de todo o país. "Por causa desse gol me promoveram para o time profissional", conta.


CERCAR-SE DE PESSOAS DE CONFIANÇA
A maioria dos jogadores entrevistados por VEJA trabalha desde o início da carreira com o mesmo empresário. Mas isso não quer dizer que um componente do sucesso seja a fidelidade a um agente. Vários jogadores, como Ronaldo e Roberto Carlos, romperam em algum momento da carreira com os empresários que os encaixaram em grandes clubes na juventude. Alguns jogadores, como Rogério Ceni, dispensam a assistência de empresários e discutem sozinhos os contratos com os clubes. Mesmo esses, porém, contam com algum apoio: Rogério tem parentes advogados, que o aconselham.
 
 Roberto Carlos
Araras, São Paulo
Aos 15 anos, quando era um aspirante a jogador de futebol e chegou a Araras, Roberto Carlos já havia trabalhado como lavrador em fazendas de café de outra cidade paulista, Garça. O produto principal de Araras é outro, o açúcar, mas os canaviais foram uma fonte de renda indireta para o atual lateral esquerdo da seleção: foi no União São João, time ligado a uma das maiores usinas açucareiras do país, que seu talento para o futebol foi revelado. Hoje Roberto Carlos é o segundo jogador com mais partidas pela seleção em todos os tempos (120) 



NÃO SE ACOMODAR AO CHEGAR AO TOPO
"Na seleção brasileira, uma coisa é ser convocado, outra é ser convocado sempre", diz o zagueiro Edmílson. Até mesmo nesse estágio, que deveria ser a consagração, a carreira do jogador está sujeita a desandar repentinamente. Em 1997, o Brasil foi campeão mundial da categoria sub-17. Daquele time apenas um atleta está na seleção brasileira nesta Copa: Ronaldinho Gaúcho. Os demais fizeram carreira em clubes grandes, no Brasil e no exterior, mas não conseguiram se firmar na seleção adulta. Dentro da própria família de Ronaldinho há um caso de jogador que quase chegou lá. Assis, irmão mais velho do atual camisa 10 da seleção, era considerado uma das maiores revelações do futebol brasileiro nos anos 80. Em 1986, quando era da seleção juvenil, chegou a treinar com os adultos do time principal do Brasil. Em 1989, seu nome foi cogitado para a seleção. Apesar de tudo isso, ele nunca vestiu oficialmente a camisa do Brasil. Foi vendido para o futebol suíço e, longe das câmeras, acabou esquecido. Ronaldinho Gaúcho pôde aprender essa lição com o irmão mais velho, que orientou a carreira do caçula de forma a não repetir a história.



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